Filipe Pagliuso ilustra cartas oficiais de Magic: The Gathering, mas nunca foi jogador. Ainda assim, recebeu uma missão que qualquer fã do jogo reconheceria de imediato: criar uma nova arte para Dark Ritual, uma das cartas mais emblemáticas da história de Magic.
Em uma conversa com o MTG Relics, enquanto autografava um playmat, o artista brasileiro contou como descobriu a importância de Dark Ritual somente depois de receber a encomenda, falou sobre a diferença entre trabalhar em sets tradicionais e em Universes Beyond e revelou uma parte pouco conhecida do processo de produção de Magic: artes que a Wizards of the Coast encomenda, paga e, às vezes, nunca publica.
A seguir, os principais momentos da entrevista, com pequenas edições nas falas apenas para facilitar a leitura.
Qual é a relíquia de Filipe Pagliuso?
No MTG Relics, chamamos de relíquia a peça que se destaca em hierarquia, identidade, escassez, história e demanda — critérios que fazem parte do Relics Score.
Por isso, fizemos uma pergunta que parecia simples: entre as cartas que ele já ilustrou, qual seria a sua relíquia?
A resposta não veio tão fácil.
“Nossa, isso é difícil, cara, porque eu acho que eu tenho várias relíquias nesse sentido.”
Entre as cartas que estavam na mesa durante a entrevista, Pagliuso apontou Tome Blast como sua favorita naquele momento.

Legenda sugerida: Tome Blast, ilustrada por Felipe Pagliuso.
Alt text sugerido: Carta Tome Blast, com arte de Felipe Pagliuso para Magic: The Gathering.
A escolha faz sentido. Para um artista que continua produzindo novas ilustrações para Magic, a favorita de hoje pode mudar com o próximo trabalho. Mas, naquele momento, foi Tome Blast a carta que ele destacou.
Como foi criar uma nova arte para Dark Ritual sem ser jogador de Magic
Dark Ritual está no jogo desde Alpha, de 1993. Por um único mana preto, a carta gera três manas pretos e se tornou um dos maiores símbolos de aceleração da história de Magic.
A arte original, de Sandra Everingham, faz parte da memória de gerações de jogadores. Por isso, receber a tarefa de ilustrar uma nova versão da carta é algo que carrega peso histórico dentro do jogo.
Pagliuso, porém, conheceu melhor a importância de Dark Ritual apenas quando recebeu a encomenda.
“Eu não sou um jogador, né? Então eu acabei conhecendo a carta quando fui fazer a nova versão dela.”
Foi um amigo próximo, jogador assíduo de Magic, quem explicou o tamanho da responsabilidade.
“Eu falei pra ele: ‘Cara, eu vou fazer uma releitura aqui de uma carta que eu vi que chama Dark Ritual’. E aí ele falou: ‘Nossa, essa carta é muito clássica’.”
Esse mesmo amigo mostrou a ele a arte original. A reação foi imediata:
“Nossa, cara, que carta doida.”
A nova ilustração seguiu um caminho próprio, sem tentar copiar diretamente a arte antiga. Ainda assim, saber que estava reinterpretando uma carta tão importante mudou a experiência do artista.
“Pra mim foi muito legal. Adorei o processo.”
Para o colecionador, esse é justamente um dos aspectos mais interessantes de cartas como Dark Ritual: a mesma carta atravessa diferentes épocas de Magic por meio de suas artes. É possível comparar todas as versões de Dark Ritual no Scryfall.
E, assim como acontece com idioma e edição — algo que já discutimos em cartas em japonês — a arte também pode pesar bastante na escolha da versão ideal para uma coleção.
Sets tradicionais x Universes Beyond: onde o artista tem mais liberdade?
Também perguntamos qual é a diferença entre ilustrar para o universo original de Magic e trabalhar em produtos de Universes Beyond, que envolvem franquias já estabelecidas.
Segundo Pagliuso, nos sets tradicionais a liberdade criativa costuma ser bem maior.
Em muitos casos, a Wizards define apenas a base do briefing e deixa espaço para o artista construir o resto.
“Vamos supor uma criatura elefante, que tem que estar com uma roupinha mais ou menos assim. O resto é contigo, entendeu?”
Em Universes Beyond, a situação muda. Quando se trata de propriedades como Marvel ou outras franquias conhecidas, os personagens já possuem identidade visual consolidada, o que naturalmente reduz a margem para reinvenção.
Por isso, Pagliuso contou que gosta especialmente de trabalhar com feitiços e mágicas instantâneas. Nessas cartas, a ilustração costuma ser guiada mais pela ação, pela narrativa e pela atmosfera do que pela necessidade de seguir à risca o design de um personagem.
As artes que a Wizards paga e não usa
Talvez o momento mais curioso da entrevista tenha sido quando perguntamos como funciona o processo de criação de uma carta que, às vezes, pode nem chegar a ser publicada.
Pagliuso contou que isso já aconteceu com ele.
“No set do Doctor Who mesmo, fiz três e uma não foi.”
Segundo o artista, esse tipo de situação acontece quando a carta muda durante o desenvolvimento do set. A mecânica pode ser alterada, a carta pode sair do arquivo e, com isso, a arte deixa de ser necessária.
Com ele, isso já aconteceu duas vezes.
E um dos casos teve um detalhe ainda mais interessante. Uma das cartas que ele levou para a entrevista era, na verdade, a segunda versão de uma arte para a mesma carta.
“Eu fiz a arte, eu fui pago, um mês depois eu recebi um e-mail falando assim: ‘Lembra daquela arte? A gente não vai usar, a gente vai comissionar outra’.”
Até aí, seria apenas uma arte descartada. O detalhe curioso é que a nova encomenda também foi feita para ele.
Resultado: duas ilustrações produzidas, dois trabalhos remunerados e apenas a segunda versão se transformando na carta final.
Para quem acompanha Magic só pela coleção ou pelo jogo, esse bastidor quase nunca aparece. Mas ele mostra que entre a ideia inicial e a carta impressa existe um processo criativo cheio de revisões, mudanças e trabalhos inéditos que o público talvez nunca veja.
O que a assinatura do artista muda para o colecionador?
A conversa começou enquanto Pagliuso assinava um playmat. Para o artista, é um gesto rápido. Para o colecionador, pode ser o início de uma nova história para aquela peça.
Com cartas, acontece algo parecido. Uma assinatura feita pessoalmente cria uma ligação direta entre o item e o artista, além de fortalecer a procedência da peça.
Isso, porém, não significa automaticamente valorização financeira.
O impacto de uma assinatura depende da carta, do artista, da demanda e do tipo de público interessado naquela peça. Em alguns casos, pode haver valorização. Em outros, a assinatura pode reduzir a liquidez da carta. Falamos mais sobre isso em carta de Magic assinada vale mais?.
Existem ainda níveis mais personalizados de trabalho por parte do artista. Uma Artist Proof pode receber um sketch original no verso branco, enquanto uma carta alterada pode receber pintura diretamente sobre a própria carta.
Cada uma dessas possibilidades tem efeitos diferentes em colecionabilidade, valor e liquidez.
Sempre que possível, também vale registrar quando e onde a assinatura foi feita. Foto, vídeo, data e evento ajudam a documentar a procedência da peça.
O artista por trás da carta
Conversar com Filipe Pagliuso é um lembrete de que existe muito mais por trás de uma carta de Magic do que o que se vê na mesa de jogo.
Antes de uma carta entrar em um deck, binder ou coleção, alguém recebeu um briefing, pensou naquela cena, fez escolhas visuais e ajudou a transformar uma ideia em imagem.
Às vezes, como aconteceu com Dark Ritual, o próprio artista só descobre depois o tamanho histórico da carta que recebeu para ilustrar.
E às vezes também existe uma arte inteira, pronta e paga, que os jogadores provavelmente nunca verão.
Para quem coleciona Magic não só como jogo, mas também como arte e história, são justamente esses bastidores que tornam cada peça ainda mais interessante.
Mais entrevistas e conteúdos do MTG Relics
Esta conversa faz parte da série de entrevistas do MTG Relics com artistas ligados a Magic: The Gathering. Continue por aqui:
- Entrevista com Caio Monteiro
- Entrevista completa em vídeo no canal do MTG Relics no YouTube
- Avalie suas cartas com o Relics Score
Perguntas frequentes
Quem é Filipe Pagliuso?
Filipe Pagliuso é um artista brasileiro que ilustra cartas oficiais de Magic: The Gathering. Entre seus trabalhos está uma nova arte para Dark Ritual, além de ilustrações feitas para produtos ligados a Universes Beyond.
Quem fez a arte original de Dark Ritual?
A arte original de Dark Ritual, lançada em Alpha em 1993, foi criada por Sandra Everingham. Desde então, a carta recebeu diversas novas interpretações visuais.
Um artista de Magic precisa jogar Magic?
Não. Filipe Pagliuso contou ao MTG Relics que não é jogador e que conheceu melhor a importância de Dark Ritual quando recebeu a encomenda para ilustrar uma nova versão da carta.
A Wizards pode deixar de usar uma arte já encomendada?
Sim. Segundo Pagliuso, mudanças durante o desenvolvimento do set podem fazer uma carta ser alterada ou removida, mesmo depois de a arte já ter sido produzida.
Carta assinada pelo artista vale mais?
Depende. A assinatura pode agregar procedência e apelo para alguns colecionadores, mas o efeito no valor varia conforme a carta, o artista e a demanda do mercado.
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