O brasileiro Caio Monteiro já ilustrou quase uma centena de cartas de Magic: The Gathering. Mas a parte mais interessante da conversa que tivemos com ele não foi sobre o que ele pintou — foi sobre o que ele pintou e nunca vai ser impresso.
Nesta entrevista para o MTG Relics, Caio falou sobre seis artes canceladas de um projeto do Arena, sobre a gaveta de ilustrações que ninguém nunca viu, sobre a dificuldade prática de assinar cartas no Brasil e sobre o Planeswalker que ele quer ilustrar um dia.
Quem é Caio Monteiro
Caio Monteiro é um dos ilustradores brasileiros mais ativos de Magic. Suas artes aparecem em sets como Ikoria, Zendikar Rising, Kaldheim, Strixhaven, Crimson Vow e Lorwyn Eclipsed, além de trabalhos fora de Magic — como Dungeons & Dragons e World of Warcraft.
Para quem coleciona high-end, ele importa por dois motivos: é um nome que assina, e é um nome cujo trabalho já circula em artist proof e alters no mercado internacional.
As seis artes canceladas do Arena
Este foi o ponto mais forte da conversa.
Caio contou que fez artes exclusivas para um set paralelo do Arena — a versão “in-universe” de Magic que a Wizards costumava criar para acompanhar os sets de Universes Beyond. Nas palavras dele:
“Recentemente eu soube de algumas que eu acho que provavelmente nunca vão ser usadas. Que eu fiz exclusivas pro Arena. (…) Acho que foram cinco ou seis artes que eu fiz pra esse set caíram porque eles usaram o Marvel Super Heroes no lugar no Arena.”
O contexto público explica o que aconteceu. Esse projeto paralelo se chamava Through the Omenpaths: cartas mecanicamente idênticas às dos sets de Universes Beyond, mas com nomes, arte e tratamento criativo do universo de Magic. Era o caminho para levar esses sets ao Arena sem levar a propriedade licenciada junto — foi assim com o set do Homem-Aranha, em 2025.
Em maio de 2026, a Wizards mudou de estratégia. Anunciou que Marvel Super Heroes e os demais sets da Marvel iriam direto para o Arena, com a arte e os nomes originais da Marvel. Com isso, o Through the Omenpaths deixou de ser necessário.
É importante ser preciso aqui: a Wizards nunca confirmou publicamente quais artes foram descartadas, nem que artes específicas do Caio foram canceladas. Isso continua sendo testemunho de primeira mão dele. O que existe é uma mudança de estratégia oficialmente documentada — e o relato do Caio encaixa exatamente nela.
Na prática, é essa combinação que dá peso à história. Uma decisão corporativa que os jogadores acompanharam pelo comunicado oficial teve, do outro lado, um efeito que ninguém viu: meia dúzia de ilustrações finalizadas que deixaram de ter destino.
Ele ainda mencionou outro caso: uma ficha (token) que ele ilustrou para uma carta que foi impressa — mas a carta acabou saindo sem a mecânica que gerava a ficha. A arte da ficha ficou órfã.
A gaveta: “tenho muitas artes prontas que ninguém nunca viu”
Perguntamos se ele tem mais material inédito guardado. A resposta foi direta:
“Cara, tenho muitas artes prontas que ninguém nunca viu. Eu tenho várias.”
E não, ele não mostra. Insistimos — nem no off? A resposta veio com risada, mas foi um não.
Isso diz algo sobre a profissão que o colecionador raramente enxerga. O artista entrega a pintura e perde o controle sobre o destino dela. Ele não sabe se vai ser impressa, quando vai ser impressa, ou se vai ficar na gaveta para sempre por um contrato que o impede de divulgar.
Para quem coleciona arte original e artist proof, essa é uma informação relevante: existe um estoque invisível de arte de Magic que nunca vai chegar ao mercado. Não por escassez natural, mas por decisão contratual.
Artist proof, assinatura e alters: por que ainda é difícil no Brasil
Perguntamos se o brasileiro já procura ele para assinatura e alter, como acontece no mercado americano. Ele confirmou:
“Me procura bastante, cara.”
O gargalo não é demanda — é logística. Caio explicou que enviar carta assinada individualmente pelo correio, um a um, é um trabalho grande e toma tempo demais. Por isso, ele concentra as assinaturas em eventos presenciais, onde consegue atender muita gente de uma vez.
Ele apontou a diferença estrutural com o exterior: lá fora existem serviços de agenciamento de assinatura, que juntam as cartas de dezenas de colecionadores, enviam em lote para o artista assinar e depois devolvem para cada um. Isso reduz drasticamente o atrito para o artista.
O Planeswalker dos sonhos: Ajani
Caio já disse publicamente que gostaria de ilustrar um Planeswalker. Perguntamos qual.
“Cara, eu gosto muito do Ajani.”
Ele citou especificamente a nova versão do personagem em Reality Fracture, o set que chega em 2 de outubro de 2026 e traz de volta os cinco Planeswalkers originais de Lorwyn — a maioria deles em duas versões. Uma é o personagem que você conhece; a outra é o espelho distorcido criado por Jace, o chamado Echoverse.
No caso do Ajani, o espelho é Ajani Unrelenting, um Planeswalker mítico mono-vermelho de {4}{R}{R}, contraponto do Ajani Resolute branco. É a leitura em que raiva e vingança tomaram conta do personagem. Caio achou o resultado excelente e disse que faria com gosto.
O detalhe mais interessante veio quando perguntamos o que ele mudaria no personagem:
“Eu faria no meu estilo. Mas eu acho que não tem nada pra mudar não. Eu gosto muito do design original dele.”
É uma resposta de quem entende a diferença entre autoria e ego. O trabalho do ilustrador de Magic não é reinventar o personagem — é interpretá-lo dentro de um universo que já existe.
A relíquia dele: Elder Auntie
Fechamos com a pergunta que fazemos a todos os artistas da série: dentre as suas criações, qual é a sua arte favorita? Qual é a sua relíquia?
Ele hesitou, disse que muda com o tempo — e citou uma goblin. Trata-se de Elder Auntie, uma Goblin Warlock de custo {2}{R} do set Lorwyn Eclipsed, ilustrada por ele.
E fez questão de separar as coisas:
“Não tem nada a ver com a carta, é a arte mesmo.”
Vale sublinhar isso. A relíquia favorita de um artista quase nunca é a carta cara. É a arte que ficou boa. Elder Auntie é uma comum de valor irrisório no mercado — e ainda assim é a peça que ele escolheu.
Existe uma lição de colecionismo aí. Preço e valor não são a mesma coisa. Uma carta comum com uma arte que você ama, assinada pelo artista que a pintou, é uma relíquia legítima. E custa uma fração do que custa uma reserved list.
Perguntas frequentes
Quem é Caio Monteiro?
Caio Monteiro é um ilustrador brasileiro de Magic: The Gathering, com cerca de 90 artes únicas publicadas em sets como Ikoria, Zendikar Rising, Kaldheim, Strixhaven e Lorwyn Eclipsed. Ele também ilustra para Dungeons & Dragons e World of Warcraft.
Quantas cartas de Magic o Caio Monteiro ilustrou?
Cerca de 90 artes únicas, o que corresponde a quase 200 impressões diferentes quando se contam reprints e versões alternativas. A lista completa e atualizada pode ser consultada no Scryfall com a busca a:"Caio Monteiro".
Existem artes de Magic que nunca foram publicadas?
Sim. Artistas entregam ilustrações que podem nunca ser impressas por mudança de escopo do set, cancelamento de produto ou mudança de mecânica da carta. Caio Monteiro confirmou ter várias artes finalizadas e inéditas, incluindo cerca de seis feitas para um projeto do Arena que foi descontinuado.
Como conseguir uma carta assinada por um artista brasileiro de Magic?
O caminho mais viável é o evento presencial. Artistas brasileiros costumam concentrar assinaturas em convenções e eventos grandes, porque o envio individual pelo correio é inviável em volume. No exterior existem serviços de agenciamento que enviam lotes de cartas aos artistas, modelo que ainda não está consolidado no Brasil.
O que é artist proof em Magic?
Artist proof é uma versão especial da carta, com verso em branco, entregue em quantidade limitada ao próprio ilustrador. O artista pode assiná-la, desenhar sobre ela ou vendê-la diretamente. É um dos itens mais procurados por colecionadores de arte de Magic.
Esta entrevista faz parte da série de conversas do MTG Relics com artistas de Magic: The Gathering. Siga o @mtgrelics no Instagram para mais conteúdo do mundo high-end.